sábado, 30 de novembro de 2013

Quer ajuda, moça?

Sendo cadeirante, quem nunca passou por uma situação, de uma boa alma se aproximando e oferecendo ajuda?

Às vezes, essas ajudas são muito úteis. Subida de calçada ou batente (lugares não pensados em acessibilidade), subida ou descida de rampas muito ingremes ou calçadas muito esburacadas ou com paralelepípedos... Enfim...

Porém, o que vou contar agora me aconteceu mais de uma vez e não foi com uma pessoa desconhecida.

Foi com meu amado e idolatrado esposo.

A família foi pela manhã, assistir a missa dominical. Eu, meu esposo e nosso primeiro filho, com pouco mais de cinco meses. Como tudo para nós é pertinho, decidimos ir a pé. Meu esposo empurrava a cadeira de rodas e eu amarrada ao bebê, nos segurávamos nos braços da cadeira.

Na ida, tudo tranquilo. Nada de anormal. Todo mundo encantado com a cena da família linda e blá blá blá. Mas na volta... Nossa Senhora... Meu amado esposo não viu uma tampa de boeiro, recentemente colocada ali no meio da rua e exatamente como a imagem acima mostra, foi a situação que fiquei.

Lembro que segurei o quanto pude para que o bebê não se machucasse tanto mas o de lascar foi a demora para voltar a sentar na cadeira, a pegar a criança no colo de novo, sem falar nos machucados. E meu amado esposo, meio que sem acreditar na cena, ficou imóvel, segurando a cadeira como se fosse um carrinho de mão depois que despeja a areia e eu e o bebê no chão.

Logo juntou muita gente, mulheres querendo pegar meu bebê e eu já muito nervosa, porque hoje em dia, não podemos confiar em ninguém, e qualquer oportunidade daria chance ao ladrão, certo?

Fiquei logo muito macho e comecei a gritar para tirar meu esposo do transe que ele estava e ele correu para pegar o bebê dos braços da mulher. Eu, com a experiência que já tenho de passar de um lugar específico para a cadeira, me segurei entre um senhor e a cadeira de rodas e sentei.

Exigi que meu esposo me desse o bebê novamente mas não queria mais que ele me empurrasse, com trauma de que ele pudesse me derrubar de novo.

Como já estava uma muvuca só, e tudo o que eu queria era apenas ir pra casa, acabei aceitando que meu amado me empurrasse pra casa novamente.

A calçada, sem adaptação, quase me garantiu uma nova queda. Mas antes que eu beijasse o chão novamente, segurei o bebê com força e me apoiei jogando as pernas para o chão. Acabou impedindo a queda mas garantiu mais machucados.

Ele se desculpou muito mas eu não o escutava porque eu estava nervosa pelo constrangimento, na rua, na frente de tantos populares e ainda por nosso bebêzinho ter se machucado.

Então, um dia, uma moça cadeirante estava tentando subir uma calçada absurdamente alta! E um rapaz aparentemente universitário, sugeriu que ela continuasse contornando a calçada até chegar ao ponto que ela pudesse subir.

Eu me indignei com o rapaz e questionei porque ele tinha agido daquela forma com a moça e ele simplesmente respondeu: "Porque parece ofensa quando oferecemos ajuda. Então, nem me ofereço mais. Vejo a dificuldade dela, mas se ela chegar pra mim e pedir ajuda, eu vou lá na maior boa vontade e ajudo com todo prazer."

Ele mal terminou de falar, a moça caiu. A cadeira dela virou pra trás. E ela riu. Riu de gargalhadas mesmo! E o rapaz, olhou pra mim, sorriu e foi lá ajudá-la. Só que antes, ele perguntou: "Quer ajuda, moça?" E ela pediu por favor, que sim. Mas não parava de rir.

Eu questionei se ela estava bem e ela sorriu dizendo que sim, estava. E eu agradeci a ajuda do rapaz. Ele acenou e eu fui embora. Muito tempo depois, mais ou menos no mesmo horário do dia dessa queda, eu vi uma turma ao redor daqueles carrinhos de lanche e facilmente reconheci a mocinha cadeirante, e ao lado dela, com o braço apoiado em seu ombro, o mesmo rapaz do dia que questionei a falta de "sensibilidade" dele.

Naquele instante eu entendi que aquele rapaz tinha me dado uma ótima lição.

Um dia, fui visitar um parente no hospital e o piso estava muito escorregadio... Não sei explicar como, mas eu caí! Digno de levantar perninha e tudo mais!

Então, imagina aí, deficiente caindo, na porta de um hospital, com vários médicos e enfermeiros do lado de fora, provavelmente término de plantão, e eu invento de cair na frente deles... Nossa! Foi cadeira de rodas pra cá, maca pra lá, chamada de maqueiro em situação de emergência e mais uma vez, o constrangimento me acometeu.

Aí, eu lembrei da moça que havia caído da mesma forma e tudo o que ela fez foi rir. Muito! E a situação era cômica. Ninguém tinha culpa de nada. Foi um acidente e eu não me machuquei gravemente. Foi só uma pancadinha na cabeça...

Assim que me deram oportunidade (verificaram pressão, batimentos cardíacos) sentei na minha cadeira e voei o mais rápido que pude pra longe daquele monte de batinhas brancas!

E ri! Muito! Cheguei em casa rouca, só relembrando as cenas cômicas. E me desculpei mais uma vez por ter sido incompreensiva com meu esposo, sem aceitar suas desculpas naquele período... Como eu era imatura...

Mas faz parte, não é mesmo? Um dia nos ensina, outro dia aplica a prova.